Eis que avisto um avestruz voando em direção a minha janela. Não, não podia ser um avestruz, nem pássaro ou mesmo avião. Após colocar os óculos rapidamente percebi era uma grande, cascuda, e inconfundível barata que a miopia tratara de transformar em avestruz. Inconscientemente apanhei um chinelo, e aguardei feito um jogador de baseball que espera pela bola. Para meu espanto, elegantemente, o inseto fez um looping no ar e pousou no beiral da minha janela, como quem faz uma reverencia fechou as asas.
- Com licença, prezado senhor posso ter acesso a sua residência? Meu nome é Geraldo venho de uma longa viagem e gostaria de descansar, enquanto isso posso lhe oferecer atualizações sobre as noticias universais de seu interesse, e se possível poderia abaixar esse chinelo? É ridículo imaginar que eu poderia ser esmagado por um calçado desse tamanho. Por favor?
- Claro... Entre, você é uma barata gigante que fala e viaja. O universo certo? Como poderia negar – disse, não acreditando ainda, no que estava acontecendo.
O inseto então novamente pediu licença, e com um farfalhar de asas sentou-se na beirada da mesa do meu computador, seus olhos observaram atentamente o ambiente por alguns instantes, passando pelo tênis, pelas meias ainda suadas, até uma pilha de papéis.
- Oh, como o senhor é gentil! Já me deixou separado migalhas de biscoito, ora temos respingos de leite com chocolate neste canto. Muito obrigado nobre senhor! Sabe... é raro achar pessoas tão generosas no universo. Olhe temos também fagulhas de pão! Que ambiente raro! – disse, anotando em um caderno o que parecia ser meu endereço enquanto mordiscava umas migalhas de biscoito.
- Então... Geraldo, não é isso? E eu supostamente deveria acreditar que você viaja pelo universo... Meu Deus! Por que eu não deveria? Tem uma barata falante logo a minha frente. Quer saber... Eu acredito! E ai? O Que há de novo pelo universo? – disse com voz tremula, em algum lugar da minha mente, me sentia idiota e fascinado por falar com uma barata falante.
O meu interesse despertou um grande... Sorriso? No “rosto” do inseto que começou a falar empolgadamente.
- Oh nobre senhor há tantas coisas para lhe contar! Mas primeiro devo me apresentar. ---- Eu sou Geraldo Arthropos, repórter universal, da revista In finito & limitado.
Com um movimento ele me apresentou um cartão com uma pequena foto brilhante da In finito & Limitado, cuja logomarca era uma pequena reta com divisões aparentemente infinitas. Devolvi-lhe o cartão com uma expressão espantada no rosto. Com um novo sorriso ele serviu-se de um pouco do leite que estava derramado sobre a mesa, bebericando a sua pequena xícara voltou a falar:
- Não somos a maior revista universal ainda, porém em breve passaremos as formigas, elas são meramente sensacionalistas. Agora acho que devo lhe contar as novidades... Aparentemente ele parecia acreditar que eu já tivesse algum conhecimento em assuntos universais. Ou em revistas feitas por insetos.
- O senhor precisava ver a primavera em Andrômeda esse ano, o florescer das falácias, quão belas são as falácias... Criou um tapete lindo, tão grande e com tantas flores, realmente uma pena pra população. Cada pétala de falácia é o suficiente pra esmagar uma dezena de habitantes... Definitivamente os habitantes de Andrômeda não sabem apreciar um espetáculo da natureza. Flores tão lindas!
- Outra noticia incrível são os relatos da guerra do universo labirinto, entre os temíveis Mini-Coelhos de Alfa Omega e os Nagzul Plâncton de ursa maior, pelo controle do Santo Grampo, objeto raríssimo. Sem utilidade, claro, mas ainda assim raro. Felizmente acabou sem nenhuma maior fatalidade. Após se perderem, acredita-se que os exércitos se juntaram pra achar a saída. Ainda sem sucesso.
Boquiaberto eu observava o inseto que falava em tom de radialista, e gesticulava, e bebericava, enquanto reproduzia com a ‘’boca’’ os ruídos da guerra, e desenhava com os papeis da minha pilha o formato das pétalas de falácias e dos Nagzul Plâncton De Ursa Maior.
- Recentemente eu cobri o Miss Dimensão, nunca vi garotas tão belas. A vencedora desse ano foi uma leguminosa da constelação jardim, Lumicela Hortz. Não é só um exemlo de beleza com seus oito belos olhos azuis, mas também por sua boa índole. Em seu discurso, acredite... Ela emocionantemente confessou que seu sonho é distribuir a Paz Dimensional em um carrinho de feira. Não é lindo? – disse o pequeno inseto enxugando uma lagrima, de forma tragicômica.
- Claro , claro... Respondi. – Mas por favor Geraldo, continue.
- Sim nobre senhor. Antes posso comer um pouco desse arroz que o senhor deixou no prato? Parece delicioso! Nunca vi um ambiente com tanta fartura quanto sua residência, nem nas colinas de hidromel nobre senhor, nem nos campos de Miojo de Balin, e muito menos nas águas vulcânicas de Astrolábio.
- Claro fique a vontade. Se quiser posso pegar na cozinha a panela com molho de carne... Aceita?
- Quanta gratidão em uma só pessoa! Fico extasiado com tamanha benevolência. Creio que tenho a obrigação de indicar o nobre senhor para personalidade Dimensional! E sua bela residência no guia de resorts gastronômicos.
- Que belo Molho de tomate! Já lhe falei sobre os a-tomates de Vezuvio?
E noite adentro, entre dejetos gastronômicos e historias envolvendo Javalis sub intencionados, uma barata me explicava sobre o universo. Eu preciso limpar meu quarto.
Efeito tubo da pasta de dente.
1 mês atrás
